Envelhecer: um direito, uma vitória ou uma conquista?

Os velhos são um laboratório vivo de análise histórica. Do passado e presente. Paul Connerton, conhecido antropólogo, diz que os corpos são o depósito da história. É neles que encontramos o mais inconsciente e subliminar dos vestígios históricos, o impossível de esconder. Em Portugal, é-lhes prolongada a vida, mas não lhes é permitido vivê-la com dignidade. São vítimas da analfabetização estrutural do Estado Novo e do subdesenvolvimento crónico do país. Estão “gastos” demais para ler, ver/ouvir televisão, passear, ouvir música, ir ao cinema, em suma, ser ativos e usufruir do tempo, ao fim de uma vida inteira de trabalho. 

Aquilo que mais me impressiona nesta faixa etária e social são os seus corpos, os tais "depósitos" da história. Carecem quase todos de cuidados de fisioterapia permanentes. Os ossos, dizem os fisioterapeutas, refletem comportamentos e mentalidades posturais. São o lugar onde se recalca o mais inconsciente de nós e da história. Os ossos são arquétipos. E eles ali estão: cansados, usados, velhos. A história usou-os. Isto diz muito de um país. Não lhes chamar velhos, diz mais ainda porque a linguagem é o preto no branco do que pensamos. De que serve não lhes chamar velhos e deixá-los morrer sozinhos em suas casas?

Somos nós que somos inconscientes e ignorantes: achamos que nunca lá vamos chegar. Quanto tempo e esforço custa a sabedoria? Chamemos-lhes velhos, por respeito. E cuidemos deles.

Entende-se que não existe apenas uma maneira de envelhecer e que o envelhecimento está presente nas nossas escolhas e hábitos de vida diários, mas que não se pode fugir das alterações biopsicossociais inerentes a esse processo. O envelhecimento precisa de ser melhor trabalhado desde cedo nos ambientes sociais, pois o futuro é resultado do presente e depende de nós semear um futuro de dignidade e respeito aos idosos que seremos, mesmo que dependentes de cuidados e institucionalizados.


Autora: Sandra Correia



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