Estereótipos da maquilhagem - Jessica Cerdeira

A forma como as mulheres se maquilham e usam o cabelo é muitas vezes usada como argumento para definir o seu grau de feminilidade, um preconceito retrógrado mas real. É comum definir uma rapariga como alguém muito feminino, quando esta gosta de se arranjar, anda sempre bem penteada ou usa o cabelo comprido. A maquilhagem está muito associada ao que é feminino, ao que é próprio de ser mulher e por isso mesmo foi ao longo da história rejeitada por tantas feministas, como forma de protesto em relação aos padrões existentes. Também por vezes, a maquilhagem é vista como alvo de certo tipo de futilidades, sem que se pense que uma mulher, ou um homem maquilhada/o podem simplesmente se sentir melhor dessa mesma forma e que nada significa, a não ser o facto de se sentirem bem consigo mesmos.

Por esse motivo, decidimos esclarecer alguns pontos sobre este tema de "estereótipos da maquilhagem" com a maquilhadora profissional Jessica Cerdeira, que nos conta um pouco sobre o seu percurso, indo de encontro ao tema em debate.


1- Quando começou esta tua paixão sobre maquilhagem?


- A minha paixão pela maquilhagem... pensando bem acho que sempre existiu, mesmo quando não imaginava que um dia iria ser o meu grande objetivo de vida! Cresci num ambiente de beleza, a minha mãe é cabeleireira, e estou no meio desde que me lembro. A maquilhagem começou a crescer quando fiz parte de alguns desfiles de moda em Viseu, e tentava recriar em casa, a partir dai passei a ser a maquilhadora de serviço das minhas amigas, chegou até a ser frustrante porque acabava por nem ter tempo para mim. Mas adorava o resultado de satisfação final. E é desde essa altura que a maquilhagem começou a ganhar terreno e força na minha vida. Até porque na minha adolescência e inicio de vida adulta dificilmente alguém se lembra de mim sem maquilhagem. E hoje posso dizer que de uma paixão inocente surgiu uma arte infinita.



2- O que te dá mais gosto quando maquilhas uma pessoa?

- Cumprir com a expectativa de cada cliente e fazê-la sorrir é extremamente gratificante.


3- Consideras que os vídeos online, género de tutoriais podem ser uma boa fonte de aprendizagem para quem quer aprender mais sobre maquilhagem?

- Sem dúvida que o conteúdo online é uma excelente ferramenta de dicas e apoio a auto maquilhagem, mas na minha opinião, não se sobrepõem à necessidade individual de cada pessoa, ou seja podemos usar os vídeos como um guia, mas alguém experiente na área será sempre a nossa melhor base de partida, nomeadamente a nível de auto aplicação.


4- Na tua fiel opinião, a beleza natural pode alguma vez sobrepor-se à beleza "elaborada" por maquilhagem?

-A beleza natural para mim prevalece sempre na makeup final, cada maquilhador e pessoa individual se identifica com um estilo, eu não troco a beleza natural ( que é a minha assinatura ) por efeitos mais pesados, como por exemplo o efeito “reboco”, mas são estilos e por isso é que existem variadíssimas opiniões na área, o bom na maquilhagem é que não existe uma regra, a regra é sentirmo-nos bonitas. Empoderar a nossa auto estima.


5- Achas que uma mulher tem de ter e deve sempre maquilhar-se?

-Acho que nos devemos sentir bem com a nossa pele. Maquilhadas ou não, sem preconceitos com a nossa pele “despida”, ela reflete o nosso cuidado, se lhe dedicarmos tanto tempo a cuidar como a maquilhar garantidamente que a maquilhagem não será um requisito obrigatório. E não nos fara sentir menos bonitas.


6- Alguma vez tiveste de fazer uma maquilhagem que considerasses que não favorecesse a pessoa e mesmo assim fizeste-a porque foi o que te foi pedido?

-Em tantos anos de experiencia na área sempre defendi o meu conceito de resultado final, já tive imensos pedidos por parte de clientes de resultados que a expectativa não iria bater certo com a realidade, mas cabe-nos a nós profissionais fazer ver ao cliente efetivamente o porquê e dar uma alternativa que possa ter algumas características adaptadas a sua realidade. Mas tive um caso muito recente, e até hoje posso dizer que foi o único.



(Instagram de Jessica - @jessicaacerdeira.makeup)


7- Quem é a tua maior influência no mundo da maquilhagem? Tens alguma entidade que sigas para melhorar os teus "skills"?

Tenho imensas referencias, nomeadamente internacionais como o Patrick Ta, Pat McGrath, Nikki Makeup... mas uma das minhas maiores referencias é portuguesa e foi minha mentora na ultima formação que tive o previlégio de realizar, Mariana Casanova.


8- Para se ser um bom maquilhador tem de se trabalhar com grandes marcas ou existem marcas brancas capazes de fazer um bom trabalho?

- Um bom maquilhador faz de qualquer produto um excelente resultado final, o que diferencia para nós a escolha das marcas, não é o preço ou o marketing que a torna famosa, mas sim a qualidade de resultado final aliada a durabilidade, ao conforto e alto desempenho, as marcas são apenas referencias que guiam os nossos conhecimentos, ás vezes até nos surpreendemos com marcas que não acharíamos que podiam ser adotadas para um kit profissional, ou nos dececionamos com outras que nos custam um rim, ou vice versa, é como tudo na vida.


9- Qual foi a tua maior dificuldade quando iniciaste no mundo da maquilhagem e como contornaste o problema?

- Não lhe posso chamar propriamente uma dificuldade, mas sim um obstáculo que impediu o meu crescimento no mercado de forma rápida, o facto de ser uma área que não é estável, não me permitiu ter o meu espaço desde o inicio, e sempre tive de disponibilizar a minha própria casa. Contudo temos de começar de alguma forma, e no meu caso levei pelo menos 6 anos a ter nome na área e no mercado do distrito de Viseu.


10-Algum conselho para quem queira começar a maquilhar-se, mas que por alguma razão possa ter vergonha?

- Procurar indicações certas para cada necessidade, se as dificuldades não forem capazes de serem superadas sozinhas, devem encontrar um maquilhador que vos descomplique e ensine como tudo é possível, com muito treino e paixão.


11- Achas que no século em que estamos faz sentido um homem se maquilhar?

- Porque não, se os fizer sentir melhor o sentido da aplicação da maquilhagem não tem género, o importante é nos fazer sentir bem, contribuindo para a nossa autoestima SEMPRE.


12- Consideras que possa existir algum preconceito e tabu face a maquilhagens mais elaboradas, principalmente nas cidades mais de interior?

- Infelizmente, por não ser tão comum existir em famílias mais antiquadas essa necessidade, mas só se mantem a existência desse preconceito se a nossa geração não o conseguir mudar. Por isso eu aconselho que cada um assuma a sua identidade quer o pai, a mãe ou o vizinho comente.


13- Qual a maior diferença para ti por exemplo, de uma cidade como Viseu e Lisboa, no que toca à utilização de maquilhagem?

- Neste momento só vejo diferença a nível profissional, as oportunidades são diferentes e o mercado também. Em conta partida cidades como Viseu, oferece mais destaque aos bons profissionais, são meios mais pequenos, existe muita procura para pouca oferta e isso aumenta o nosso potencial de clientes.


14- Achas que ainda existe um caminho a percorrer no que toca à maneira de como as pessoas encaram a maquilhagem?

- Todos os dias são mais um km percorrido de como a maquilhagem é encarada, mas acredito que estejamos cada vez mais perto de revolucionar esta área e torna-la tão importante como qualquer outra. Assim como o uso da mesma, sem preconceito e sem género.


15- Consideras que a maquilhagem deva ser algo para o dia-a-dia e regular ou somente para dias de festa?

- Deve ser algo que possamos usar quando achamos que faz sentido, seja para ir comprar pão, uma saída ou para mais um dia de trabalho.


16- O que dirias a alguém que considere que uma mulher bastante maquilhada é uma "barbie", no sentido pejorativo?

-Que todos temos o direito de sermos o que quisermos, e que o que pode ser para ele uma barbie para outra pessoa pode ser apenas uma mulher segura de si. Que o exterior não define o que nós somos e apenas nos deveríamos preocupar se a pessoa se sente feliz.


17- Nesta frase: "As mulheres são solidárias ao ponto de partilharem os seus truques de maquilhagem", achas que tem alguma veracidade ou está simplesmente errada? Podes dar-nos a tua opinião?

- Sem dúvida que o intuito é chegar a outras pessoas de forma a puder contribuir com dicas de auto ajuda e que possam mostrar as variadas formas de aplicação, até porque a maquilhagem é um mundo de criatividade. Hoje em dia é também uma ferramenta de trabalho para alguns, que vivem da criação desse conteúdo.


18- Uma rapariga que queira ingressar no mundo da maquilhagem, a nível profissional (para ser maquilhadora), deve começar por onde? Qual o primeiro passo que consideras que deve dar?

- Sem duvida que é a formação, apostar em formação preferencialmente com que nos identifiquemos. Seguir a paixão sem nunca desistir, só o tempo é que nos aperfeiçoa.



E assim termina a nossa entrevista, um agradecimento muito especial à Jessica por esta partilha tão clara de ideias e por nos ter dado a sua opinião sincera.

Poderão ver mais do seu trabalho na rede social instagram @jessicaacerdeira.makeup .

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