Monstros- os vícios

Sinto que sempre que dou a opinião sobre este assunto, não consigo traspor a minha verdadeira opinião, ou então grande parte das pessoas não percebe. Acho que é daquelas situações que só se percebem quando se passa por elas, ou talvez cada um de nós tenha uma reação diferente. Estou a falar no consumo de drogas e da maneira como afetaram a minha vida. Note-se, é uma história pessoal, mas espero que alguém consiga de alguma maneira identificar-se com os pontos que vou referir e retirar algo desta história. Todos nós temos problemas, todos nós temos demónios, por consequente, todos arranjamos um escape para conseguirmos lidar com eles. É legitimo. Ou nos viramos para o álcool, ou nos viramos para o tabaco, ou nos viramos para o sexo, ou nos viramos para as drogas. E também todos nós conhecemos os nossos limites. Sabemos a quantidade que devemos consumir até ao ponto de começarmos a ter efeitos negativos. Até não os conhecermos. Até as coisas se desequilibrarem e nos encontrarmos completamente presos, vítimas destas substâncias, e chega a um ponto em que não somos nós que consumimos as mesmas, são elas que nos consomem a nós. Como qualquer outra pessoa, vivo, saio à noite, divirto-me, bebo um copo, fumo uns cigarros sem pensar nas consequências que irei ter para o futuro. Sei que não o deveria fazer, também sei que os problemas que tenho não se vão resolver com isso. Tenho dois casos pessoais fortes que me deixaram na cobardia, sem saber reagir ou a culpar-me a mim mesmo, sem necessariamente ter culpa de nada. O primeiro aconteceu há alguns anos atrás, essencialmente um familiar muito querido para mim, o meu padrinho, abusava de drogas. Começou com drogas fracas para tentar destruir os seus monstros, que eram a ideia de se sentir inútil. Das drogas fracas passou para as misturas de medicação com o álcool e, até isso deixar de lhe dar a “moca”, passou para as drogas fortes. O meu padrinho era uma boa pessoa, apesar disto tudo. Vivia com os meus avós e tinha uma namorada, mas não conseguia manter um trabalho por mais de 2 semanas. Era consciente, na pior fase terminou a relação com a namorada porque não lhe ia conseguir dar uma vida de respeito. Isto foi ele a ir longe demais. A consciencializar-se que não tinha como escapar aos seus maiores monstros, criados por ele, que foram as dependências. Ele arrastou-se durante muitos anos, até que, num momento de lucidez, suicidou-se nas linhas do metro do Porto. Os monstros dele deixaram de existir para ele. Mas transformaram-se em monstros meus e do resto da minha família. O que é que nós podíamos ter feito para evitar? Nós sabíamos o que ele passava, víamos os problemas no seu aspeto. E ainda assim, não fizemos nada. O segundo caso que quero partilhar é ainda mais próximo de casa. Aos que me conhecem, sabem que tenho os melhores pais do mundo, nunca me deixaram de amar ou de me dar aquilo que eu sempre precisei/pedi. Até ao ponto em que o meu irmão foi estudar para fora e não se adaptou. Mas foi muito orgulhoso para pedir ajuda. Tentou curar uma depressão com o abuso de drogas. Os meus pais, assim que descobriram, tentaram fazer de tudo para que esta dependência terminasse. Ofereceram a ajuda na altura certa. Eu, pelo contrário, reagia explosivamente. Estava também a estudar fora e sempre que vinha passar o fim de semana, via o meu pai a dizer asneiras e a minha mãe sempre a chorar. Custou-me imenso, mas em vez de ter oferecido também a minha ajuda, reagia muito mal. Assim que o meu irmão se apercebeu da destruição que as dependências estavam a causar, começou a fumar menos, e menos, e menos. Neste momento está controlado. Tudo graças à ajuda que lhe dispuseram os meus pais.

Serve esta história real para vos fazer refletir sobre o abuso de drogas, e sobre pedir ajuda numa altura em que sintam as coisas a descontrolar-se um bocado. Peçam ajuda. A mim, aos vossos pais, aos vossos amigos. Não guardem os monstros para vocês porque um dia poderão ser os monstros das pessoas que mais vos amam.

Autor: Anónimo





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