Não me pertenço- entrevista


Entrevistado: Salvador Marques, 24 anos


1. Como é acordar todos os dias num corpo com que não nos identificamos?

Todo o decorrer do dia é extremamente complicado de passar, mas posso dizer que a manhã é a parte mais complicada. Acordar e ter o pensamento de “vamos lá aguentar mais um dia”. Ter que lidar com este corpo que não me pertence, a dor e o alívio de colocar o binder. Todos os dias são uma luta, não há um bocadinho em que esteja em paz comigo mesmo.


2. Como soubeste que querias a mudança?

Sempre senti que algo não estava correto. Nunca me senti bem neste corpo, mas não entendia bem o porquê. Comecei a praticar desporto e a ir ao ginásio a ver se este sentimento de odio mudava, mas antes pelo contrário, só piorou e comecei a isolar-me imenso. Na altura não sabia quem era ao certo, se estava só a meter ideias na minha cabeça que não existiam. Não havia muita informação disponível e eu nunca tinha ouvido falar numa situação semelhante a como me sentia. Ninguém dava a cara pela causa, até que apareceu um caso num programa televisivo português e aí eu percebi que não havia nada de errado comigo apenas tinha nascido num corpo que não era o meu. Comecei a recolher informação, com o tempo houve uma aceitação da minha parte, até que ganhei coragem para fazer o chamado “coming out” e precisava urgentemente começar todo o processo.


3. Achas que a sociedade está preparada para esta questão, ou ainda existem muitos tabus?

Na minha opinião, já existe muita informação acessível a todos, mas mesmo assim ainda há quem não queira se informar e continuar com as suas ideias e preconceitos. Há quem entenda ou queira entender, mas na verdade ainda existe muita incompreensão e tabus.


4. A tua família apoia a tua decisão?

Na maioria sim. Foram compreensivos e apoiam todo o processo.


5. Como reagiram os teus amigos?

Os meus amigos próximos já sabiam basicamente. Quando lhes contei por palavras, não ficaram surpreendidos. Costumo dizer que assumir-me enquanto homem trans foi um teste às minhas amizades. Vi quem está realmente do meu lado. Perdi algumas amizades, mas também fez-me focar nas que importam realmente.


6. O que consideras que é mais doloroso no meio de tudo aquilo que estás a passar?

Penso que seja a própria aceitação diária. Viver com este corpo e pensar “calma, é temporário”. Iniciar o processo em hospitais públicos também pode ser bastante doloroso, o tempo de espera para cada etapa pode ser bastante demorado e por consequente psicologicamente doloroso. Basicamente é dizerem a uma pessoa que já está mesmo no seu limite “tenha paciência, espere mais um bocadinho”. Esperar e confiar no processo, consegue ser bastante stressante e doloroso.


7. Que conselho podes dar a futuras pessoas que optem pela mesma decisão que tu?

Que tenham calma que tudo melhora. No início pode parecer que nada muda, que ninguém nos entende, mas não estamos sozinhos e as coisas mudam. Procurem falar com as pessoas, não se isolem. O isolamento só piora a nossa saúde mental. Procurem falar com pessoas na mesma situação. Não tenham medo de procurar ajuda. Conversar com quem está no mesmo processo pode ajudar imenso. Não somos menos que ninguém, apenas temos um caminho mais complicado para percorrer, mas chegamos onde os outros chegam.


8. Se tiveste alguém que te descriminou o que lhe dirias agora? (responder só em caso de ser afirmativo)

Infelizmente tive e tenho, mas não guardo mágoa. E não preciso de lhes dizer nada sinceramente.







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