Poderei morrer com mas não de

Não sei bem por onde começar este texto. Estou há praticamente 10 minutos com o cursor a piscar diante de mim, a tentar escolher as palavras melhores. Mas torna-se dificil porque tudo aquilo que eu quero dizer é: "É possível!"

Poderia começar por me apresentar de uma forma pomposa, mas de uma maneira ou de outra, já devem ter ouvido falar do Chef Le Poisson. Se não ouviste é porque ainda não assististe ao nosso grande musical da Pequena Sereia. Estás em falta! Mas se já assististe, já sabes quem eu sou. Hoje deixei de lado a minha minúscula capacidade de criatividade para a escrita e vou dar um testemunho na primeira pessoa.

A esta altura já te deves estar a perguntar: "será que podes ir direto ao tema?"! Então eu vou deixar-me de rodeios: hoje escrevo sobre CANCRO! Mas não te precisas de assustar já. Acaba de ler, pode ser que te surpreendas.

Poderia contar aqui toda a minha história, mas isso seria repetir-me e massacrar com detalhes que podem ser um pouco aborrecidos. Por isso vou resumir tudo muito rapidinho.

Um dia a minha vida deu uma volta de 180 graus. Um dia o chão fugiu-me dos pés e eu achei que era o fim. Só que tudo isto aconteceu num prazo de 30 segundos. Como? Já te vou explicar.

Eu tinha 24 anos quando descobri que tinha um tipo de Cancro, chamado de Linfoma de Hodgkin. No dia em que eu soube eu tinha a minha mãe a meu lado. Sabes aquele momento em que o tempo pára ou os teus pensamentos têm uma velocidade enorme? Pois eu tive um desses momentos: a minha mãe estava a meu lado e a pior coisa é ver uma mãe sofrer por nossa causa. Então eu pensei imediatamente: "se eu cair, todos caem comigo!" Então naquele preciso momento eu comecei a brincar.

Lembro-me bem do peso daquelas palavras, mas nunca deixei que elas fossem um peso na minha vida. Eu era um doente oncológico a partir daquele momento, com um Linfoma de Hodgkin de nível 4 (o Linfoma de Hodgkin tem 4 níveis. O nível 1 é o mais suave e o 4 o mais grave) mas isso não ia toldar a minha vida. Não podia ser. Eu poderia morrer com Cancro, mas nunca iria morrer de Cancro, porque eu iria lutar com todas as minhas forças até ao fim.

Daquele dia em diante eu vesti a minha melhor armadura, a espada mais afiada e iria lutar. E se eu vos disser que me diverti bastante? Pareço um pouco louco, não? Mas a verdade é que eu ri muito, diverti-me muito, tive muitas experiências boas. Imaginem: quando eu me juntava com o Luis (um rapaz que também tinha um Linfoma e estava a fazer tratamento comigo) na mesma sala de tratamento, aquilo virava o Texas. Se eu dizia mata, o Luis dizia esfola. Não havia tristezas naquela sala, nós não deixávamos. A verdade é que também ninguém descansava e aquela sala parecia uma feira popular. Eram as enfermeiras a ver o que se passava, eram as auxiliares e os médicos. Naquele dia não havia descanso para ninguém.

Depois estive a fazer um protocolo de tratamento em que eu ficava lá toda a semana ligado aos quimicos. Da primeira vez que fiz esse protocolo, estavam mais três rapazes a fazer tratamento. E um dia tivemos a louca ideia de fazer corridas com os nossos "carros" com os quimicos. Foi de loucos. Das vezes seguintes eu já parecia um rei porque tinha um quarto só para mim e tinha sempre um miminho no meu pequeno-almoço (isto porque a minha melhor amiga trabalhava lá).

A minha vida era passada entre hospital e casa. Bem, casa e mundo, isto porque aproveitei para passear, para conhecer novos locais, fazer almoçaradas e jantaradas com amigos, muitos cafés... Olhem, a minha vida foi uma roda viva. Eu não me podia permitir a entrar numa depressão! Já me bastava a doença e as horas no hospital. Porque é que aquilo não podia ficar no hospital quando eu me viesse embora? Até ficava, mentalmente, porque mesmo nos dias em que eu fazia tratamento eu saía para tomar café, mesmo com a minha mãe a barafustar (a berrar literalmente) comigo. As paredes de nossa casa podem ser um bom refúgio mas também podem ser as nossas piores inimigas. E inimigos já eu tinha que bastasse.

Por essa altura comecei também a escrever um blogue onde ia relatando a minha forma de combater o cancro e aquilo que eu ia vivendo. Cheguei a dar uma entrevista para um jornal, cheguei a ir a palco dar o meu testemunho. Houve quem achasse que eu estava a "dar nas vistas" mas eu nunca quis ser coitadinho. Talvez desse nas vistas pela forma como consegui lutar contra o meu cancro, não para que tivessem pena de mim. Conheci, nessa altura, também uma daquelas amigas super especiais que mesmo longe nunca te deixam na mão, que já tinha passado por um Linfoma de Não-Hodgkin e era tão maluca quanto eu. E acreditem, a Marine deu-me muita força e energia positiva.

Tenho inúmeras histórias para contar sobre tudo o que se passou, que são sempre um bom tema num café. Vamos tomar um? Eheheh. Mas, a minha finalidade com este texto é, nada mais nada menos, mostrar que é possível passar-se por um Cancro e ser-se feliz ao mesmo tempo. Que um Cancro não é o fim do mundo, que há varias formas de o contornar. Queria mostrar-te que a vida continua, que não tens de passar pelo papel de coitadinho.

Se tu és doente oncológico, se tu tens alguém que o é, então este texto é para ti. Não vivas aprisionado a esse Cancro, mas se tu a assumir o controlo do barco, mesmo que custe, mesmo que no fim seja com ele que morremos. Não deixes que isso aconteça, não deixes de viver, não deixes de sorrir e de rir. Tudo te é permitido: ninguém te vai julgar por dares um riso enorme no meio de um café ou de passares a fila do supermercado à frente. E se alguém o fizer, mostra-lhe que és um "careca-power", como diz a minha Marine (já conheces os projetos dela? Procura "Cancro com Humor" e vais ver que há mais loucos como eu!). Não deixes que a tua careca seja motivo de vergonha, mas motivo de inveja. Até te podem chamar Crilin ou "Ruquinha" (se soubessem como eu detestava este nome), mas mostra que és melhor que eles. E se por acaso perdeste todos os pelos do teu corpo (desde cabelo, pestanas, sobrancelhas, pelos púbicos e das pernas) vais então perceber que é uma MARAVILHA.

E agora vou ficar por aqui, mas só quero escrever mais duas coisas. A primeira é que por vezes também chorei e senti que era injusto. Também achei que não iria sobreviver e caí algumas vezes. Mas aceitei a doença e quis lutar contra ela. Continuo a achar que a cura é 50% dos medicamentos, 50% da nossa cabeça. Tu tens de ser o teu próprio medicamento e por vezes a força que os outros precisam.

A segunda e última coisa que quero escrever é: se precisares de alguma coisa, podes procurar-me. Estarei sempre disponível a falar, a contar histórias malucas, a ouvir. Quem já passou por algo assim pode ser sempre uma ajuda. E acredita, juntos somos mais que vencedores.


Autor: Ismael Sousa




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