Voluntariado Guiné Bissau


Desde os primeiros anos da faculdade que ouvia falar num projeto de voluntariado em África e na experiência e plenitude que as pessoas traziam de lá. Sabia que a procura incessante por participar nesta aventura era talvez a decisão mais louca e fora da minha zona de conforto que eu tinha tomado até então. Mas era também a mais desejada! E foi assim que começou a nossa viagem. Cinco jovens raparigas, cinco anos de medicina, cinco malas maiores que nós. Nelas levávamos alguns receios, esperança, mas muita vontade de crescer. Eram tantas as histórias ouvidas, e nós sabíamos para o que íamos, mas a verdade… é que ninguém está verdadeiramente preparado.

Aterramos no meio da escuridão. Guiné Bissau não tem luzes vista lá de cima. Preparamos aquela que ia ser a nossa casa durante longas semanas, num misto de estranheza e algum nervosismo, esperando o nascer do sol de um novo verão.

No dia seguinte, parecia que nós é que tínhamos trazido luz aquele lugar. O olhar de esperança com que as pessoas nos olham é algo indiscritível, como se viéssemos trazer alguma salvação. As crianças correm até nós com vontade de nos tocar na pele e mexer no nosso cabelo; para alguns era a primeira vez que viam uma “branca”. Onde quer que fossemos a nossa chegada era motivo de celebração, e nunca me senti tão calorosamente bem vinda num lugar que parecia tão alheio. Não é cliché dizer que um dos países mais pobres dos mundo é também um dos mais felizes!

No entanto, toda a experiência foi uma montanha russa de emoções. Por mais forte que uma pessoa tente ser, é impossível não vacilar em certos momentos.

“Aqui morre-se por coisas que ninguém devia morrer”

Foram muitas vezes os sentimentos de impotência perante situações que fogem completamente ao nosso alcance. Lá nascem muitas crianças por dia, mas quando uns segundos depois do parto o bebé não chora, sabes que é mau sinal. Aspiração, estimulação, mais um minuto passa e vês as parteiras a aceitarem a situação e levar o recém nascido para outra sala. Deitado numa bancada fria, ainda abre lentamente os olhos mas mantém-se cada vez mais imóvel. Porque é que toda a gente à tua volta parece estar a aceitar a situação e tu não consegues? Decidi que tinha de fazer alguma coisa, não conseguia ficar a olhar para aquilo a acontecer e ver mais um minuto a passar. Foi sem dúvida o momento mais frustrante e incapacitante que já tive: reanimar um recém-nascido de 24 semanas mesmo sabendo que não haveria nada a fazer.

E muitas mais situações semelhantes se seguiram. Pessoas a serem-lhes negadas cirurgias por falta de anestesia. Antibióticos parados ao fim de semana porque ninguém quer trabalhar. Doentes a perguntar se é mesmo preciso fazer outro hemograma porque já não têm como pagar. Adultos a pesarem 30kg. Crianças, mulheres, idosos, grávidas aos quais lhes é negado o direito de saberem que são HIV positivos. Pessoas a morrer porque a terapêutica antirretroviral não chega para todos. Episiotomias a sangue frio com instrumentos ferrugentos passados com uma solução 10% betadine, 90% água. Doenças que eu nunca imaginei ver com os meus próprios olhos – tuberculose ganglionar, toxoplasmose cerebral, sarcoma de kaposi, candidose esofágica. Escolher quem ter direito a medicação ou oxigénio e quem vamos deixar morrer. E esperar só que isso não aconteça à nossa frente como muitas vezes aconteceu…

Muitos deles nunca vão sair daquele hospital com um diagnóstico. Muitos deles não vão sequer sair. Mas apesar de tudo, unimos forças, e demos o nosso contributo da melhor maneira possível. Desde que chegamos que os doentes que conseguíamos ver, pois eram muitos, passaram a ter diário clínico e medicação mais regular e eficaz. Aprendemos que o doente é a maior fonte de informação que podemos ter e que, no final do dia, mesmo que nós o queiramos negar e oprimir e não sentir, não sofrer… eles são tão ou mais humanos que nós.

Houve momentos em que só queria fugir e cada semana pareciam meses. Mas no final, o amor e a esperança das pessoas compensa todos os aspetos negativos e mais alguns, até mesmo o arroz com frango todos os dias. Durante este mês fomos um bocadinho da Guiné e vamos sempre levar um bocadinho dela, e de todas as pessoas que conhecemos, connosco!

Sei que deixámos muito de nós lá, e vivências que não se recuperam. Mas a nível humanitário, eles ensinaram-nos muito mais do que nós poderíamos imaginar. E há coisas que nunca se esquecem: a alegria e o abraço da primeira alta, os pedidos para voltar, o amor das crianças, os pedidos também para os levar, a simplicidade da vida de África e as lágrimas de quem um dia irá voltar!


Beatriz Sá Pereira

Aluna de Medicina do 5º ano

Universidade da Beira Interior




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