"Os heróis de Mafalda Mota fazem a diferença, mesmo sem capa"


Mafalda Mota, com o seu projecto de ilustração e storytelling, Heróis Sem Capa, pretende revelar ao mundo, em especial ao futuro do mundo, às crianças, que o nosso valor vem de dentro. E que, ao contrário do que possamos pensar, não precisamos de nenhum fato especial nem de "super-poderes" para sermos, também nós, o herói de alguém (Silva, 2022).




Só me lembro de jurar, a pés juntos, que não seguiria ilustração, e agora reconheço que foi o que me salvou do meu próprio desespero. Sempre soube que o meu lugar estava no mundo das artes. No quê exatamente, só viria a descobrir no meu 21º ano de vida, mas não saber não me impediu de traçar um caminho que me apontava na direção que mais me fazia sentido. No segundo ano do que foi a minha Licenciatura em Design de Comunicação pela FBAUL, tive uma cadeira de ilustração (imprescindivelmente frustrante). Se antes já não sabia qual era o meu lugar no mundo, depois do que fiz e que não fiz para aquela disciplina, bem, questionei verdadeiramente se estava no caminho certo (estava, mas isso era quase impossível de reconhecer na altura). Nada do que vi naquele ano me representava. Não encaixava em nenhuma das técnicas, em nenhum dos processos, em nenhuma das maneiras de como era “suposto” ser artista. Não conseguia fazer nada minimamente satisfatório… Não correu bem. Foi aí que jurei que ilustração não era para mim. Tirei-a do meu futuro, pu-la numa caixinha que tranquei com uma chave e atirei para bem longe. Dois anos depois, estou sozinha em Barcelona. São os primeiros meses do Mestrado em Edição e Publicação pela Pompeu Fabra que decidi fazer, pois descobri que, no meio de tantos “nãos” que a FBAUL me trouxe, o que realmente se tinha mantido durante toda a minha jornada ali era a minha paixão pelo processo de criação dos livros. Quis saber mais e sob uma perspetiva diferente - estava a precisar de pôr a arte, aquilo que tinha escolhido durante toda a minha vida, de parte, e fui ver aprender sobre o lado do negócio do mundo editorial. Enquanto isso, estava a lidar com algo pelo qual nunca tinha passado: o luto. Desde que me lembro que penso sobre a morte. Sobre o que é morrer e sobre como me sentiria se alguém próximo de mim falecesse.


Foto de Mafalda no programa da manhã da SIC


O meu sentido prático tenta sempre ignorar a náusea e a notória ansiedade que me correm nas veias e traçar um plano: o que fazer se, como, quando, porquê… Achava eu que saberia como agir quando um dia tivesse que passar por isso. Estava enganada. Não soube lidar, não estava a conseguir lidar, e estava sozinha numa cidade que me era estranha… Se alguma vez se viveram sozinhos, numa cidade que não é a vossa, longe de quem mais gostam, compreendem quando vos digo que o que eu mais tinha era tempo para pensar em tudo aquilo que não estava a conseguir processar. Seguiram-se dias cinzentos, noites em branco e livros inteiros - consumidos para me distrair da minha própria cabeça. Horas a contar as zero lâmpadas no teto do quarto (um hábito que criei sem dar conta), à espera que o sono chegasse. Numa dessas noites em branco, farta de esperar, levantei-me da cama e quando dei conta, estava a fazer algo que nem há muito tempo me trazia infelicidade e irritação: desenhar. As madrugadas de insónia tornaram-se o meu momento de epifania e pico de criatividade (algo pouco saudável mas, pelo que sei, característico de um artista), e numa noite muito específica, dei por mim a criar personagens para histórias infantis inspiradas em heróis da vida real. Não há como explicar, mas essas primeiras criaturas que me saíram da cabeça (às quais hoje chamo de Buos e estão publicadas num livro) catalisaram aquilo que começou a ser o meu verdadeiro processo de aceitação da minha nova realidade: uma onde já não estavam presentes, fisicamente, pessoas de quem o meu coração tanto gostava. Sempre me disseram para nunca dizer nunca - algo que sempre me enervou, confesso. Contrariei esse cliché sempre e quando podia, mas a verdade é que, hoje, estou a fazer algo para o qual nunca fiz planos (algo pouco característico, visto que controlo e planeamento é algo que me traz mais tranquilidade do que gosto de admitir). Algo que, hoje, vejo que é o que faz sentido para mim, mas que se me perguntassem quando tinha 10, 15, 18, 20 anos, não seria de todo o que responderia. Sou apenas uma pessoa que nasceu numa cidade pequena e que sempre soube que artes era o caminho, mas que nunca soube bem porquê. Tomei decisões lógicas devido à incerteza, e outras que hoje, em retrospetiva, não fazem qualquer sentido. Mas tudo me trouxe aqui, ao mundo da literatura e ilustração infantil, com um projeto que é, no fundo, uma homenagem aos heróis da minha vida - os que partiram e os que ainda cá estão. Se não tivesse renunciado a ilustração e desistido, provavelmente não me teria trazido alívio quando mais nada o fazia. E se não tivesse encontrado uma escapatória criativa na ilustração, provavelmente seria uma pessoa bem mais vazia, perfeitamente incapaz de lidar com o que não compreendo. Se retirarem algo desta minha partilha, espero que ao olharem para trás não vejam o vosso caminho como um impedimento para encontrarem o vosso lugar no mundo (que todos o temos). Espero antes que, com ternura, abracem as boas e más decisões e que, definitivamente, não atirem para longe as chaves das portas que vão fechando. Há umas que merecem ficar fechadas para sempre, mas há outras que não. E o controlo é de quem as tem na mão.




Autor: Mafalda Mota




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