Decorar não é só memorizar: é sentir a cena
- Visiunarte Ateliês

- 29 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
Ao longo do meu percurso no teatro, fui descobrindo a forma como melhor consigo decorar texto e trabalhar as minhas personagens. Normalmente, numa fase mais avançada do processo, gosto de reler as falas com atenção à entoação que devo usar e treino-as em voz alta. Para mim, isso faz toda a diferença.
Consigo decorar muito melhor quando percebo bem o contexto de cada cena e o tema que está a ser trabalhado. Por isso, prefiro dividir o texto por cenas: ajuda-me a perceber em quais ainda preciso de investir mais tempo e atenção. Com a repetição e a prática constante, as falas acabam por se tornar quase automáticas, o que me dá mais segurança em palco.
O contexto é mesmo essencial para mim, especialmente quando está ligado às emoções da cena. Quando sei o que a personagem está a sentir, consigo associar melhor cada fala ao momento certo. Pelo contrário, cenas mais neutras, sem uma emoção específica, são mais difíceis de memorizar porque não tenho esse apoio emocional para ligar o texto à ação.
O tempo que demoro a decorar um texto varia bastante. Se só tiver contacto com ele nos ensaios, pode demorar cerca de um mês. Mas se for lendo e trabalhando o texto ao longo da semana, consigo decorá-lo em duas a três semanas. Normalmente prefiro estudar ao final da tarde ou à noite, quando já estive ativa durante o dia. De manhã sinto que ainda não estou totalmente desperta e tenho muita dificuldade em concentrar-me.
Nunca usei técnicas específicas de memorização. Até hoje, sempre consegui decorar o texto com alguma facilidade e nunca senti grande necessidade de recorrer a métodos mais formais.
Curiosamente, apesar de ter sido diagnosticada com um nível de ansiedade ligeiramente elevado, no teatro isso não acontece. Apresentar trabalhos ou falar em público fora do palco é um pesadelo para mim, mas quando estou a representar, consigo dizer as falas decoradas e atuar sem qualquer ansiedade.
Quando me esqueço de alguma fala em cena, costumo improvisar algo que mantenha o sentido da fala original, para não quebrar a linha de raciocínio da cena. Assim, tudo continua a fluir naturalmente.
Não me lembro de nenhuma dica muito específica que o Miguel me tenha dado sobre decorar texto, mas todas passavam muito pela ideia de praticar várias vezes em casa, sempre que possível. Um exercício que me marcou foi o que fizemos no ano passado, em que tínhamos de escolher uma personagem de um livro ou filme e agir como ela numa situação do dia a dia, como estar numa fila de supermercado. Esse exercício ajudou-me imenso a perceber como o contexto e a personalidade da personagem podem ser fundamentais para decorar as falas.
Acho que, na maioria das vezes, decorar texto é um trabalho individual. Ainda assim, já pratiquei falas fora dos ensaios com colegas, trocando dicas sobre entoação e formas de enriquecer as personagens. Essas partilhas também me ajudaram a memorizar melhor.
Por fim, nunca tive de ajudar diretamente alguém em cena por se esquecer do texto, mas lembro-me de ter acalmado uma colega nos bastidores que, por causa dos nervos, estava a bloquear completamente. Fizemos um exercício simples de respiração e isso ajudou-a a acalmar-se antes de entrar em palco.
Autora : Leonor Almeida





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