Perder tudo para a anorexia

A anorexia é um transtorno alimentar que se manifesta principalmente em adolescentes do sexo feminino. Está ligada a aspetos psicológicos (principalmente), fisiológicos e sociais, normalmente especificados em problemas com a autoimagem, e alguns complexos.

Existem características que possibilitam a deteção deste doença, como extrema organização, responsabilidade, independência, interesse pelo valor nutritivo dos alimentos, tentativas de melhorar a alimentação da família, permanecer horas em frente ao espelho, realização de exercícios físicos, a movimentação do corpo mesmo em repouso com o intuito de queimar calorias, dormir pouco e estudar em demasia.

Hoje vamos falar sobre esta doença que infelizmente ainda afeta muitos jovens e adolescentes, tal como afetou a nossa atriz Ana Perdigão, que nos vem contar tudo sobre o assunto:


Quando eras mais nova alguma vez te olhaste ao espelho e apesar do peso não corresponder, achavas que tinhas peso a mais para a tua altura?


Quando era criança, como praticava natação desde os 4 anos sempre fui muito magrinha. Na altura, cheguei a emagrecer de um ano para o outro e tinha mudado também de altura. Nunca tive problemas de alimentação, aliás eu era bem gulosa e não pensava nessas questões.


Com que idade começaste a ter problemas de alimentação?


Comecei a ter aos meus 14/15 anos…nessa altura nadava no melhor clube de natação (FCP), aos sábados tinha aulas de representação, na altura com a atriz Sofia Alves e o encenador Celso Cleto em Lisboa. Tudo me corria bem e estava perto de alcançar os meus sonhos; mas por algum motivo comecei também a comer "porcarias" de hora a hora.


O que te levou inicialmente a controlar a tua alimentação?


Eu no FCP treinava o triplo que o meu antigo clube SCBM em Aveiro e fazia muito ginásio e por consequente comia muito.

Talvez por isso, comecei a engordar a passos largos e dos 54kg fui para os 62kg… e foi aí que tudo começou... Pode nem estar diretamente relacionado mas eu adorava teatro, até porque sou tímida e é uma forma de me "soltar" e naquela época era a famosa altura dos "Morangos com Açúcar" da TVI, pensava eu "para ser atriz tenho de ser manequim", havia muito aquela ideia de que as raparigas tinham de ter um certo estereótipo de beleza, a altura e o peso ideal. Hoje-em-dia, este tema é mais abordado, existe mais informação e as próprias agências de moda e televisão (algumas) já não seguem tanto esse regime do ser magro e ser de determinada maneira; mas na altura ainda não era o caso. Então, já aí, eu achava que estava gorda. Comecei a reduzir no que comia, na minha alimentação de forma brutal, até ao momento em que até água deixei de beber para não engordar.


Houve alguém ou algo que te influenciou a teres problemas alimentares?


Sim, houve. Por incrível que pareça, a minha mãe começou a dizer que eu qualquer dia não cabia nas portas com tanto que comia e que nunca seria magra como as minhas colegas, para ela podia nem significar nada ao dizer-me isso, mas o bicho da "magreza" já lá estava e o facto dela me dizer essas palavras magoava-me e deixa-me a pensar, depois os meus colegas estavam sempre a apalpar-me porque diziam que eu tinha umas "pernas boas", nesses momentos eu só queria passar despercebida. Então comecei a querer provar a mim mesma que era capaz de ser magra como as minhas amigas a quem nada disso acontecia. Comecei a pensar em tudo, a vestir as piores roupas que tinha no armário, e perdi toda a minha auto estima.


Em que é que te prejudicou a tua anorexia?


O facto de ter tido anorexia prejudicou-me imenso na natação. Houve uma altura em que o meu treinador na altura, no FCP, me veio perguntar se eu queria continuar a emagrecer para ser "modelo" ou ser a dita normal e continuar a nadar e ser bem sucedida. Depois disto, foi uma bola de neve catastrófica, tive 4 internamentos, um deles de 1 ano e 1 mês. Tiveram de me colocar uma sonda para comer porque cheguei aos 34kg no hospital de Viseu, mas ainda não estou recuperada, embora muito melhor, só que estas situações causam mazelas para a vida. Prejudicou-me nos estudos porque não queria ir às aulas por não saber a matéria, inventava sempre desculpas e deixei de ter amigos.


Se tivesses um amigo a passar pelo mesmo, qual o primeiro passo que deve tomar?


Que não o faça, e se pensar nisso que afaste rapidamente esses pensamentos, que procure ajuda, nem que seja um amigo de verdade para dizer como se sente. É muito fácil de entrar numa situação destas quando se está de cabeça perdida e muito difícil de sair. E só trazemos mais problemas para a nossa saúde e nossa vida a todos os níveis, há que pensar bem antes de cometer um erro como este e perceber que não ganhamos nada com isto sem ser deixar-nos ainda piores.


Os outros são importantes para ultrapassar a anorexia?


São importantes, o facto de uma simples palavras como "estás bonita hoje" ou "gosto de te ver assim" , o facto de notarem que estamos ali simplesmente pode mudar tudo para alguém que se sente como eu já me senti, porque apesar de me dizerem que estou bonita e bem, na minha cabeça eu ainda sei que estou gorda, e esses cinco minutos de palavras não custam nada a dizer e podem mudar uma vida.


Que conselho darias a uma pessoa que está a passar pelo mesmo que tu passaste?


Que não vale a pena sujeitar-se a este tipo de sofrimento, porque nesta doença sofre-se muito e deixa muitas sequelas. Na verdade, existe a vontade de comer, porque temos fome, mas achamos que não podemos e na verdade não comemos, porque aquilo que vemos no espelho, nos bloqueia a vontade de comer. Por exemplo, no inicio da doença, adorava ver as pessoas a comer e gostava muito de cozinhar para elas, dá-nos imenso prazer fazer isso, talvez porque é um engano estar a cozinhar mas no fundo sabermos que não vamos comer, talvez porque gostávamos de fazer o mesmo, mas não o conseguimos fazer, ou fazemos e vamos vomitar, como é o caso da bulimia.

Se tiverem a passar por isto procurem ajuda porque isto é uma doença grave, mas que com ajuda é possível ultrapassá-la!


Autor: Ana Perdigão




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