Um pouco sobre a Visiunarte - Prémio Anim'arte 2020

No final de 2019, a pandemia de COVID-19 veio afetar toda a sociedade. O mundo viu-se obrigado a parar e a crise instalou-se em todos os setores, mas foi na Cultura que ela se abateu de forma particularmente grave.

A Associação Visiunarte perante todas dificuldades, recusou-se a cruzar os braços e com o espírito que sempre a pautou tudo fez para que os dias cinzentos da crise pandémica, ganhassem algum ânimo. E foi este espírito abnegado, o amor ao teatro, à música e à dança que foi reconhecido e distinguido com o prémio Anim’Arte para a Associação Cultural do Ano 2020.

Por isso, o Visiunarte endereça o seu mais reconhecido agradecimento à Direção do GICAV e à Equipa Redatorial da Revista Anim’Arte por nos ter atribuído este prémio tão prestigiante e honroso.


Fazemos agora um breve resumo de como surgiu o Grupo Visiunarte facultado pela sua presidente - Maggie Ribeiro:


“Tudo começou quando eu tinha 17 anos. Eu e duas amigas, Joana Martins e Cristina Figueiredo, decidimos criar um grupo de teatro em Viseu, um grupo que nos preenchesse e conseguisse tornar a nossa veia criativa mais arrojada.

No início, tivemos o apoio da Dona Olinda Rodrigues, Presidente da Associação Cultural e Recreativa de Santiago, alguém a quem estou muito grata, ainda hoje.

Mais tarde juntou-se a nós a coreógrafa Margarida Costa e conseguimos aprender muito com ela, no que toca à dança.

Foram anos de esforço, diversão e companheirismo, inclusive participámos com a Associação de Santiago nas Marchas dos Santos Populares de Viseu, uma experiência que nunca iremos esquecer (quando digo iremos, falo dos meus colegas que também participaram), conhecemos uma realidade diferente, bairrista, acompanhada de muito orgulho e nós vestíamos a camisola de igual forma, afinal aquela era a nossa casa.

Com o tempo a passar e a fase da adolescência cada vez mais a desaparecer, essas colegas que estavam comigo foram estudar e viver para fora, e foi então que fiquei sozinha, porque optei por estudar em Viseu, onde conheci a Carolina Morais, que por sua vez até tinha sido minha colega no liceu, mas desta vez era minha colega de Universidade e se antes, apesar de colegas não nos relacionávamos muito, agora tornávamo-nos grandes amigas. Rapidamente, ela veio para o "meu teatro" e rapidamente percebemos que o talento dela era imenso. Então começou uma parceria que perdura até hoje, trabalhando em conjunto e formando uma equipa coesa.


As primeiras peças de teatro que levámos a cena focavam temas diversos, sendo que algumas eram escritas por mim e outras eram adaptações.

Em 2012, percebemos que o nosso grupo estava a crescer e que se calhar para obtermos mais apoios financeiros teríamos de nos tornar numa associação formalmente e foi assim que surgiu a Associação Juvenil Visiunarte Ateliês de Teatro e Dança, onde contei com o grande apoio de Margarida Costa e também da Carolina Morais.


Enfim, fomos dando asas à nossa criatividade, saltando de espaço em espaço (uma vez que não tínhamos uma sede própria), tendo ensaiado na Sede do Bloco de Esquerda e posteriormente na Junta de Freguesia de Viseu (duas entidades “contrapostas”, mas que generosamente se aprontaram para nos ajudar) onde preparámos o nosso primeiro musical "Moulin Rouge". Eu adorava o filme, a história, o drama, as músicas e pensei o quanto eu gostaria de tentar fazer algo semelhante. Então começámos a trabalhar para que isso fosse possível e, na verdade, aconteceu e com sucesso. Rapidamente o "bichinho" dos musicais apareceu na nossa Associação e numa viagem que fiz a Londres em que fui ver o musical “Mamma Mia” com 4 amigos que também pertenciam à Associação, ficámos totalmente fascinados com o que vimos. A coordenação dos bailarinos com a voz de cada ator, a grandeza dos cenários, um público que vibrava com o que via no palco, tudo isto nos encantou. Logo ali apostámos, eu e o meu amigo Miguel Costa que o passo seguinte seria produzirmos o “Mamma Mia” em que ele, Miguel, seria o nosso "Sam". E assim, surgiu o nosso segundo musical - o "Mamma Mia".


Foram tempos um pouco loucos e oscilantes, tudo aconteceu muito rápido, entraram pessoas novas, dotadas de enorme talento, que nos trouxeram muita energia e alegria e a peça foi um sucesso. Com o decorrer do tempo, percebemos que, provavelmente, nem todos os caminhos dos nossos elementos se cruzariam, tendo havido uma quebra que rapidamente tentámos amenizar com a criação do grande musical "A Pequena Sereia". Foi um sucesso, nunca repetimos uma peça tantas vezes, salas cheias, crianças felizes, não sei explicar, quando me lembro do que foi, foi uma época feliz, foi muito bom!


No meio dos musicais fomos fazendo peças de teatro com outros registos, tendo ganho honrosamente, alguns prémios no festival teatro de Viseu. No entanto, apercebemo-nos que aquilo que nos faz verdadeiramente felizes é a produção de teatro musical, área deficitária na conjuntura cultural de Viseu. Neste contexto, decidimos apostar naquilo que nos dá mais prazer, tanto a nós atores como ao público em geral. O nosso maior prémio é vermos a alegria que conseguimos transmitir ao público, mas também, o facto do vermos que o Visiunarte se tem vindo a impor no panorama teatral da cidade.


Depois seguiu-se o “Aladdin”, uma peça que tanto adorámos criar, mas que sofreu com o aparecimento da pandemia de Covid 19, pelo facto de ter sido criada numa altura muito ingrata. Creio que teria muito mais para dar, mas como todos os artistas, também o nosso grupo sofreu com esta crise, tendo feito um grande esforço para nos mantermos como Associação e conseguirmos virar a página.

E conseguimos!


Neste momento, estamos com a produção "A Princesa do Gelo", a "Canção de Viseu" e "A Bela e o Monstro", 3 peças de teatro musical criadas durante o confinamento, com os ensaios realizados essencialmente por videochamada através da plataforma Zoom, dá para crer?


Enfim, isto foi um breve resumo do nosso percurso, claro que nem tudo foi um mar de rosas, claro que também temos as nossas desavenças por vezes, mas tudo isso faz parte da nossa aprendizagem e crescimento, e a nossa Associação pode ser um lugar para ficar, ou um lugar de passagem, seja o que for que aprendem por "aqui" é bom, como em todas as experiências da vida.


Para além da parte criativa, quando se criou o grupo, eu andava a estudar, como já disse, na escola secundária onde existiam muitos grupos nos intervalos, miúdos que estavam sozinhos, parecia que ninguém os via, e isso mexia comigo. Então sempre quis que o nosso grupo fosse de todos e para todos, não fazendo discriminação e a verdade é que a troca de experiências e a partilha tem sido imensa e excelente. Pessoas que, provavelmente, noutro tipo de ambiente não se iriam conhecer nem falar devido às suas diferenças socioeconómicas, culturais ou estatuto social ou por outro motivo qualquer e que no teatro se tornaram grandes amigas, porque o teatro aproxima as pessoas e juntas fazemos o todo.

Quiçá foi esta união que nos deu alento para sobreviver a uma pandemia enquanto Associação Juvenil e até criar as 3 peças musicais neste ambiente que, até ver, estão a dar frutos e é com orgulho que as apresentamos agora.


Se me perguntarem: "Há algum tipo de preconceito relativamente aos musicais?" eu respondo, sim, há, especialmente vindo de algumas entidades culturais de Viseu e é algo um tanto revoltante, por desvalorizar um trabalho sério, contínuo, com grande esforço e empenho pessoal, com muito poucas ajudas financeiras, e que é feito, por vezes, por jovens, alguns com vidas muito complicadas tanto em casa como na escola, e que encontram na nossa associação um espaço que os acolhe, que os afasta de alguns perigos, onde se esforçam e onde dão tudo de si. No fim, apraz-nos ver que o público nos afaga com os seus aplausos e que nos congratula. Esse é para mim e para qualquer ator o verdadeiro reconhecimento.”




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